
Uma pesquisa conduzida por cientistas da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) acendeu um sinal de alerta para a saúde pública: a obesidade infantil já pode provocar danos vasculares precoces, mesmo em crianças sem outros fatores clássicos de risco cardiovascular.
O estudo avaliou 130 crianças entre 6 e 11 anos e identificou sinais de inflamação e disfunção no endotélio — camada que reveste internamente os vasos sanguíneos e é considerada essencial para o equilíbrio do sistema cardiovascular. A pesquisa contou com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) e foi publicada no International Journal of Obesity.
Processo inflamatório começa ainda na infância
Segundo a professora Maria do Carmo Pinho Franco, autora do estudo, os resultados demonstram que a obesidade não atua apenas como um fator cumulativo ao longo da vida.
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“Já era conhecido que crianças com sobrepeso têm maior probabilidade de se tornarem adultos com doenças cardiovasculares. O que o estudo mostrou é que o processo de adoecimento começa ainda na infância, antes mesmo do surgimento de outros fatores de risco”, afirma.
As crianças avaliadas eram pré-púberes, não fumavam, não consumiam álcool e não apresentavam histórico prolongado de maus hábitos. O único fator identificado foi o excesso de peso.
Marcadores indicam dano vascular
Entre os principais achados está o aumento da expressão gênica da citocina inflamatória TNF-alfa, além da elevação de micropartículas endoteliais apoptóticas (EMPs), marcadores associados a dano celular no endotélio.
O estudo também mediu o Índice de Hiperemia Reativa (RHI), exame que avalia a função da microvasculatura. Crianças com sobrepeso e obesidade apresentaram pior desempenho no teste, além de alterações em indicadores como índice de massa corporal (IMC), circunferência da cintura e pressão arterial.
De acordo com os pesquisadores, a disfunção endotelial é considerada etapa inicial no desenvolvimento de doenças como aterosclerose, infarto e acidente vascular cerebral (AVC).
Pesquisa em campo e ações educativas
O trabalho foi realizado com crianças atendidas em um Centro da Juventude na capital paulista. As avaliações clínicas ocorreram no próprio local, com apoio de médicos, nutricionistas e enfermeiros voluntários. As análises laboratoriais foram conduzidas no Departamento de Biofísica da Escola Paulista de Medicina (EPM-Unifesp), incluindo extração de RNA e quantificação de marcadores inflamatórios por PCR.
Além da investigação científica, o projeto incluiu ações de conscientização alimentar. Merendeiras e responsáveis participaram de treinamentos para reduzir o uso de ultraprocessados e priorizar alimentos mais saudáveis no cardápio infantil.
Alerta para políticas públicas
Para os pesquisadores, os dados reforçam a necessidade de ampliar políticas públicas voltadas à prevenção da obesidade infantil, especialmente em comunidades em situação de vulnerabilidade socioeconômica.
Sem intervenção precoce, essas crianças podem evoluir para quadros de doenças cardiovasculares e metabólicas na vida adulta, aumentando a pressão sobre o sistema de saúde.
O estudo evidencia que a obesidade infantil deve ser tratada como questão de saúde estrutural e não apenas comportamental, uma vez que os impactos já podem ser observados nos primeiros anos de vida.















