
No contexto do Dia Internacional da Mulher, a reportagem do NetCampos conversou com Caroline Formenton, empreendedora à frente do Boulevard Genève, um dos empreendimentos mais tradicionais do Capivari, em Campos do Jordão.
Representando a segunda geração da família responsável pelo empreendimento, Caroline compartilha na entrevista sua trajetória pessoal, os desafios de assumir a gestão de um negócio familiar, o papel da liderança feminina no turismo e as transformações que vêm moldando o perfil do visitante da cidade.
Durante a conversa, ela também aborda temas como a sazonalidade do turismo na Serra da Mantiqueira, a importância de preservar o legado arquitetônico e histórico do Boulevard Genève e os projetos que devem marcar o novo ciclo de desenvolvimento do empreendimento nos próximos anos.
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A seguir, confira a entrevista completa concedida ao NetCampos.
Trajetória pessoal
Você representa a segunda geração à frente do Boulevard Genève. Como foi crescer acompanhando o desenvolvimento do empreendimento e em que momento decidiu assumir um papel ativo na gestão?
Eu cresci sentindo muito orgulho em ver o que meus pais construíram juntos em Campos do Jordão e com um sentimento de muito pertencimento à cidade por conta disso. Eu costumo dizer que assumir a gestão do Boulevard Geneve, por mais satisfação que me cause hoje, teve um gosto muito amargo porque isso aconteceu por conta do falecimento da minha mãe que também estava à frente do empreendimento junto com meu pai. Não foi apenas uma decisão, foi uma obrigação, uma consequência da vida, mas que como já disse, me traz muita satisfação e orgulho. E tenho certeza de que minha mãe, de onde ela está, sente muito orgulho do que estamos fazendo com o empreendimento que ela idealizou há tantos.
Quais foram os maiores aprendizados que você herdou da geração anterior e quais mudanças sentiu necessidade de implementar ao assumir a gestão?
Sempre assisti aos meus pais pondo a mão na massa em tudo o que faziam. Mesmo tendo uma equipe muito competente auxiliando-os, sempre estavam presentes tanto no Boulevard quanto na Malharia Geneve. Acho que isso é algo que levarei para sempre na minha vida e que espero passar pros meus filhos também. O que eu e Lucas, meu marido, estamos implementando é algo que é primordial pra nós dois, que é a profissionalização da gestão do empreendimento. Estamos com a “mão na massa”, mas sempre tendo em mente que o que não temos expertise temos que trazer equipe capacitada pro time.
Assumir um negócio familiar traz desafios específicos. Como você equilibra o respeito ao legado com a necessidade de inovação?
No Boulevard Geneve nós respiramos história, somos um prédio em enxaimel, uma técnica medieval de construção onde as vigas de madeira são encaixadas e preenchidas com tijolos. Um casal de visionários sonharam e projetaram isso há 40 anos, não valorizar esse legado seria um grande erro da nossa parte. O que fazemos hoje é preservar essa história com muito respeito e carinho. Meus pais sempre presaram pelo cuidado com nossas fachadas, com nossas flores, com o belo que representamos, então seguimos com essa bússola pra nos nortear, mas sempre olhando pro futuro e para o que podemos evoluir.
Liderança feminina
O Dia Internacional da Mulher sempre reforça a discussão sobre liderança feminina. Na prática, quais foram os principais desafios que você enfrentou ao se posicionar como gestora em um setor ainda bastante competitivo como o turismo?
Acho que se posicionar em qualquer setor sendo mulher sempre foi e infelizmente ainda é muito desafiador. Temos muita sorte com nossa equipe de colaboradores porque grande parte dela está conosco há mais de décadas, algo que nos traz muita segurança, confiança e estabilidade, mas no início da minha gestão eu senti que ainda era vista como a filha dos empreendedores e não como a mulher à frente do negócio. No setor e na nossa região ainda há um certo conservadorismo implícito em falas e atitudes, mas acredito que quando se faz um trabalho sério e competente ele chega à frente de qualquer gênero, seja ele masculino ou feminino.
Você percebe mudanças no espaço ocupado pelas mulheres no setor de turismo e hospitalidade nos últimos anos?
Eu vejo as mulheres sendo muito mais protagonistas hoje em dia do que quando o Boulevard foi fundado por exemplo. Lembro de perceber minha mãe agindo muito mais nos bastidores, tendo ótimas idéias como a sugestão da influência arquitetônica do BG e nunca ter sido mencionada por esse mérito. Acho que nosso papel hoje, além de criar um legado para as futuras gerações, é o de honrar o que foi feito e escrever essa “nova” história.
Que conselhos você daria para mulheres que desejam empreender ou assumir posições de liderança no setor turístico?
Sejam corajosas, se unam a pessoas que falam a sua língua e que estejam alinhadas com seus princípios. Saibam se posicionar de maneira assertiva, mas sem perder a ternura. Sejam ternas mas sem deixarem de lado a assertividade.
Se atualizem e estejam atentas ao mercado e ao que acontece não somente dentro de casa, mas no mundo.
Quando um ganha é bacana, mas quando todos ganham o sucesso é muito maior e recompensador.
Empreendedorismo em Campos do Jordão
Campos do Jordão é um dos destinos turísticos mais consolidados do Brasil. Na sua visão, o que faz a cidade continuar atraindo visitantes ano após ano?
O clima da nossa cidade é algo que nos beneficia desde sempre. A nossa natureza exuberante é de tirar o fôlego e atrai inclusive investidores de outras serras do país. Quando se fala em destino de inverno no nosso país Campos do Jordão é sempre lembrado pela gastronomia, hotelaria e também agora por um turismo de experiência, onde o turista pode desfrutar de passeios em meio a natureza, trilhas, tirolesas, parques de arborismo e na cena cultural o festival de inverno é um clássico a ser explorado por amantes da música clássica e por curiosos do tema.
Como o Boulevard Genève se posiciona dentro desse cenário turístico tão competitivo da cidade?
O Boulevard Genève tem uma posição muito consolidada dentro de Campos do Jordão. Mais do que um centro comercial, ele faz parte da própria história do desenvolvimento turístico e arquitetônico da cidade. Há 41 anos, o empreendimento ajuda a construir a identidade do Capivari e seguimos trabalhando para ampliar ainda mais essa relevância.
A nossa estratégia é seguir fortalecendo o BG como um espaço que une arquitetura, experiência e uma curadoria de marcas, sempre conectado ao turismo e à cultura local. Ao mesmo tempo, buscamos ampliar a visibilidade do empreendimento para além da cidade, posicionando o Boulevard Genève também no cenário turístico nacional.
Nos últimos anos realizamos um trabalho intenso de estruturação interna e fortalecimento da gestão. Agora entramos em uma nova fase, de ampliação de parcerias, projetos e experiências que reforcem ainda mais essa presença e relevância.
O perfil do turista que visita Campos do Jordão mudou nos últimos anos?
Sim mudou, mas o mundo mudou também. Não é algo exclusivo da nossa cidade. E se adaptar é fundamental para a saúde do empreendimento. Temos lojistas parceiros que estão conosco desde o início assim como a Marilda do Matterhorn, mas também muita gente nova chegou e está fazendo um trabalho muito importante para atender esse novo perfil de turista.
Desafios da sazonalidade
Um dos grandes desafios do turismo em cidades de montanha é a sazonalidade. Como vocês lidam com essa realidade ao longo do ano?
A sazonalidade sempre fez parte das cidades turísticas, mas esse cenário vem mudando bastante nos últimos anos em Campos do Jordão.
Hoje já vemos períodos como Natal e Ano Novo e feriados prolongados ganhando cada vez mais força. Além disso, a própria cidade tem trabalhado para ampliar o calendário turístico. A nova gestão da Prefeitura vem potencializando datas importantes, como a Páscoa, por exemplo, o que contribui para uma distribuição mais equilibrada do fluxo de visitantes ao longo do ano.
Do nosso lado, buscamos acompanhar e fortalecer esse movimento, criando experiências, parcerias e ativações que estimulem o público a visitar o Boulevard Genève em diferentes momentos do calendário, ainda de forma tímida, mais com muita verdade e vontade de ampliar. Acreditamos muito nessa construção conjunta entre poder público, iniciativa privada e empresários locais. Quando esse movimento acontece de forma integrada, toda a cidade ganha força como destino turístico.
Inovação e futuro
Em um destino turístico tão tradicional como Campos do Jordão, como inovar sem perder a identidade da cidade?
O Boulevard Genève é um empreendimento extremamente consolidado dentro de Campos do Jordão e acabou se tornando, ao longo dos anos, parte da própria paisagem da cidade. Muitas vezes a pessoa ainda nem associa o nome, mas reconhece imediatamente a imagem. Basta procurar por Campos do Jordão em qualquer busca ou material turístico que, em algum momento, o BG aparece.
Quando assumimos a gestão, havia uma missão muito clara: preservar esse legado. O Boulevard Genéve carrega uma história importante dentro do desenvolvimento turístico da cidade e isso exige muito cuidado com a sua identidade.
Ao mesmo tempo, estruturamos uma gestão que permite olhar para o futuro. Hoje temos um time preparado para pensar inovação, novas experiências e novas parcerias, sempre com a preocupação de equilibrar tradição e renovação.
Quais são as tendências que você enxerga para o turismo nos próximos anos, especialmente para destinos de natureza e clima de montanha?
O turismo vem passando por uma transformação importante. As pessoas estão buscando cada vez mais experiências autênticas, contato com a natureza, gastronomia, cultura e momentos de bem-estar. Campos do Jordão se favorece muito com essa mudança de comportamento, porque reúne exatamente essa combinação de forma muito natural.
Também vemos uma tendência de viagens mais curtas e frequentes ao longo do ano, o que ajuda a distribuir melhor o fluxo de visitantes e estimula os destinos a oferecer novidades em diferentes momentos do calendário.
Dentro desse contexto, o Boulevard Genève tem um papel interessante. Estamos no coração do Capivari, mas buscamos criar experiências que conectem o visitante com o espírito da cidade. Queremos que o BG seja um oásis dentro desse centro turístico, um espaço onde arquitetura, curadoria e experiências se encontram para tornar a visita ainda mais especial.
Se você tivesse que definir em poucas palavras o que significa liderar um empreendimento turístico em Campos do Jordão hoje, como resumiria essa experiência?
Sem tangenciar uma fala piegas, mas talvez acertando em cheio, a primeira palavra que me vem à mente quando leio essa pergunta é orgulho. O Boulevard Geneve é um ícone na cidade e o assumi num momento de muita dor e foi extremamente desafiador tanto pela parte prática da gestão quanto pela questão emocional da minha perda, mas hoje quando olho pra trás vejo que conquistamos e construímos muito mais do que planejamos e sonhamos. O Boulevard Geneve foi construído por dois visionários e hoje ele está sendo gerido por dois sonhadores que tem os dois pés bem posicionados em solo firme.





















