
A programação de quarta-feira, 17 de junho, no 9º Conexidades, em Campos do Jordão, foi marcada por debates estratégicos sobre o futuro dos municípios brasileiros. O evento reuniu gestores públicos, especialistas, representantes do Governo do Estado, lideranças municipalistas e profissionais de diferentes áreas para discutir temas ligados à inteligência artificial, saúde, turismo, sustentabilidade, cidades inteligentes, infraestrutura urbana, atração de investimentos, arquitetura e urbanismo e liderança feminina.
O conjunto de painéis mostrou que os desafios das cidades estão cada vez mais conectados. Ao longo do dia, os debates passaram pela modernização dos serviços públicos, pela necessidade de planejamento urbano, pela força econômica do turismo, pela adaptação dos municípios à longevidade, pela digitalização da gestão e pela busca por soluções sustentáveis para enfrentar mudanças climáticas e melhorar a qualidade de vida da população.
Inteligência artificial ganha espaço na gestão pública
Um dos destaques da programação foi o painel “Da teoria à prática: como a Inteligência Artificial já está transformando os municípios”, que discutiu o uso da tecnologia na modernização da administração pública.
O debate contou com a participação de André Luiz Sucupira, diretor jurídico de Governança e Inovação da Prodesp; Tiago Dias, consultor de tecnologia, inovação e IA e CEO da AlavancaAI; Lucas Seren, prefeito de Bebedouro; Anderson Farias Ferreira, prefeito de São José dos Campos; além dos vereadores de Campos do Jordão Gil Du Valle e Ricardo Malaquias.
Durante a apresentação, Sucupira destacou que a inteligência artificial pode ajudar a reduzir burocracias e tornar os serviços públicos mais eficientes e acessíveis ao cidadão. Segundo ele, o Estado de São Paulo possui hoje uma estrutura tecnológica robusta, com o maior data center público estadual do país, atendendo milhões de cidadãos e processando grandes volumes de dados.
Entre os exemplos apresentados estiveram a Sala do Futuro, que atende mais de 3,5 milhões de estudantes e cerca de 200 mil professores, e uma plataforma com 61 agentes de IA usada no desenvolvimento de sistemas para a Prodesp, com economia estimada de 53 meses de capacidade operacional e R$ 11,5 milhões em recursos.
Outro caso citado foi o Licencia.SP, projeto desenvolvido em parceria entre a Prodesp e a Cetesb para modernizar e digitalizar o licenciamento ambiental nos municípios paulistas, trazendo mais agilidade, automação, segurança jurídica e transparência.
A discussão também reforçou um alerta importante: antes de automatizar, é preciso organizar processos, qualificar dados e mapear corretamente os problemas da gestão pública. A inteligência artificial foi apresentada não como uma solução mágica, mas como uma ferramenta capaz de apoiar decisões, reduzir gargalos e melhorar a experiência do cidadão quando aplicada com planejamento, metodologia e segurança.
Saúde municipal debate financiamento, regionalização e hospitais filantrópicos
A saúde pública também ocupou espaço central na programação de quarta-feira. O painel “Saúde nos Municípios: financiamento, hospitais filantrópicos e o desafio de manter o atendimento de portas abertas” discutiu gargalos históricos enfrentados por prefeituras, Santas Casas, hospitais filantrópicos e gestores municipais.
Participaram do debate Beatriz Hernandez Palermo, diretora do Departamento Regional de Saúde de Taubaté; Itamar Borges, deputado estadual e integrante da Frente Parlamentar das Entidades Sociais, Santas Casas e Hospitais Filantrópicos; Juliana Mendes, presidente do Fórum dos Conselhos de Atividades Fim da Saúde de São Paulo; Denise Ribeiro, articuladora de atenção básica do Estado de São Paulo; e Walter Feldman, presidente do Fórum São Paulo da Longevidade.
Beatriz Hernandez Palermo apresentou o processo de regionalização da saúde no Estado de São Paulo, iniciado em 2023, com participação das secretarias municipais na identificação dos principais problemas regionais. Ela também destacou a criação da Tabela SUS Paulista, lançada em janeiro de 2024, que complementa em até cinco vezes os repasses federais para unidades contempladas, especialmente filantrópicas.
Entre os resultados apresentados, foram citados aumento expressivo nas internações, com mais de 1,5 milhão de registros, quase 40% acima de 2022, crescimento de 46% no número de cirurgias e redução de 50% na taxa de mortalidade relacionada à oncologia.
O painel também abordou desafios como judicialização da saúde, falta de profissionais especializados, envelhecimento populacional e aumento dos custos médicos e hospitalares. A mensagem central foi que saúde pública eficiente exige financiamento adequado, planejamento regional, qualificação permanente das equipes e cooperação entre Estado, municípios e instituições.
Turismo 60+ abre nova frente para destinos turísticos
A longevidade também entrou na agenda do Conexidades com o painel “Turismo 60+: A Era da Longevidade”. A discussão tratou do impacto do envelhecimento populacional no turismo, na economia e na gestão pública, mostrando que os destinos precisam se preparar para um público cada vez mais ativo, exigente e estratégico.
O encontro reuniu Walter Feldman, presidente do Fórum São Paulo da Longevidade; Roberto de Lucena, ex-secretário de Turismo e Viagens do Estado de São Paulo; Leandro César, vice-prefeito de Campos do Jordão; Ana Carolina Kuwabara, CEO do Fórum de Turismo 60+; e Carlos Cruz, ex-vice-prefeito de Campinas e ex-presidente da Associação Paulista de Municípios.
Walter Feldman destacou que a longevidade deve ser compreendida como uma das grandes transformações da sociedade, ao lado das mudanças climáticas e da revolução tecnológica. Segundo ele, o público acima de 60 anos movimenta cerca de US$ 30 trilhões no mundo e terá peso crescente nas decisões políticas e econômicas.
Representando Campos do Jordão, o vice-prefeito Leandro César ressaltou que o público 60+ pode contribuir para reduzir a sazonalidade do turismo, já que costuma ter maior flexibilidade para viajar ao longo do ano. Ele destacou que a cidade reúne atributos importantes para esse perfil de visitante, como infraestrutura, segurança e opções de lazer.
A discussão também apresentou o conceito NOLT, sigla para New Older Living Trend, usado para definir uma geração madura que rejeita o rótulo tradicional de “idoso” e busca viver com autonomia, propósito, tecnologia e vida ativa.
Turismo como ferramenta de desenvolvimento territorial
Outro debate importante da quarta-feira foi o painel “Turismo em movimento: o que faz um destino crescer de verdade”, que reuniu representantes da Secretaria de Turismo e Viagens do Estado de São Paulo, AMITESP, APRECESP, Campos do Jordão e Assis.
Participaram Ana Biselli Aidar, secretária de Turismo e Viagens do Estado de São Paulo; José Basílio de Faria, presidente da AMITESP e prefeito de Santa Clara d’Oeste; João Victor Barboza, presidente da APRECESP e prefeito de Águas de São Pedro; Fabio Izar, secretário de Desenvolvimento Econômico e Turismo de Campos do Jordão; e Telma Spera, prefeita de Assis. A mediação foi feita por Toni Sando, presidente executivo da Unedestinos e do São Paulo Convention & Visitors Bureau.
A secretária Ana Biselli Aidar destacou que destinos bem-sucedidos precisam de planejamento integrado, governança, qualificação e promoção. Segundo ela, não basta pensar o município de forma isolada: é preciso trabalhar em rede, com apoio de entidades, instituições e parceiros estratégicos.
O painel reforçou que o turismo deixou de ser apenas uma atividade de lazer e passou a ser uma ferramenta de desenvolvimento territorial. Quando bem planejado, o setor gera emprego, renda, investimentos, fortalece pequenos negócios, valoriza a identidade local e melhora a qualidade de vida de quem mora e de quem visita.
Fabio Izar destacou a importância dos eventos para reduzir a sazonalidade de destinos turísticos consolidados. Em sua avaliação, a parceria com a iniciativa privada, empresas e patrocinadores é fundamental para transformar projetos em realidade e manter a cidade em movimento ao longo do ano.
Desenvolvimento econômico e atração de investimentos
A atração de investimentos foi tema do painel “Investimento e Desenvolvimento: novas frentes para fortalecer os municípios paulistas”, que abordou geração de empregos, ambiente de negócios, crescimento regional e vocações econômicas dos municípios.
O debate reuniu Jorge Lima, secretário de Desenvolvimento Econômico do Estado de São Paulo; Carlos Eduardo Pereira da Silva, Caê, prefeito de Campos do Jordão; e Nelita Cristina Michel Franceschini, prefeita de Iracemápolis.
Durante a abertura, foram apresentados indicadores do desempenho econômico paulista, como a abertura de 1,2 milhão de empresas e a criação de 1,3 milhão de empregos formais. Jorge Lima também destacou que os investimentos atraídos pelo Estado de São Paulo já somam R$ 580 bilhões.
O secretário defendeu que o crescimento dos municípios depende de planejamento, visão estratégica de longo prazo, infraestrutura, educação e desenvolvimento econômico e social. Ele também ressaltou que turismo deve ser tratado como negócio e indústria, não apenas como lazer.
O prefeito Caê abordou os desafios de Campos do Jordão como destino turístico consolidado e destacou a necessidade de manter a atratividade da cidade ao longo do tempo. Segundo o material apresentado no painel, o município vem recebendo investimentos privados próximos de R$ 1 bilhão, voltados à ampliação da permanência dos visitantes e à diversificação das experiências turísticas.
A mensagem do debate foi que o desenvolvimento econômico não depende apenas de repasses públicos, mas da capacidade dos municípios de criar oportunidades, atrair empresas, fortalecer vocações regionais e estimular ambientes favoráveis aos negócios.
Cidades inteligentes começam pela infraestrutura
A transformação dos municípios por meio da infraestrutura digital, da iluminação pública moderna e da eficiência energética foi tema do painel “Cidades do Futuro: Inteligência Urbana, Iluminação Pública e Infraestrutura Digital para Transformar Municípios”.
Participaram do debate Juliana Ulian, engenheira e CEO da GHM Solutions e do CPIIC; Claile Oppenheimer, executivo com atuação em alta tecnologia e telecomunicações; Boris Petrovic, presidente do Instituto Nikola Tesla/ExoTesla; Luis Fernando Parma, especialista em concessões e PPPs da I4 Brasil; Diego Pelloso, CEO da Demape Iluminação; e Roberto Mendes, especialista em eficiência energética da Vitális Energia.
Os especialistas defenderam que a iluminação pública é uma das bases mais importantes para a construção de cidades inteligentes, porque está presente em praticamente toda a malha urbana e rural e pode servir de suporte para sensores, conectividade, segurança, monitoramento e geração de dados.
Juliana Ulian destacou que a tecnologia precisa estar acompanhada de pessoas capacitadas e decisões inteligentes. Diego Pelloso reforçou que recursos avançados, incluindo inteligência artificial, dependem de uma base sólida de infraestrutura.
A eficiência energética também foi apontada como elemento indispensável para o desenvolvimento urbano sustentável. A mensagem do painel foi direta: uma cidade inteligente não é aquela que apenas compra tecnologia, mas aquela que consegue transformar dados em ações concretas para melhorar a vida do cidadão.
Sustentabilidade municipal e Ranking Green City
A sustentabilidade ganhou destaque com o painel “Ranking Green City de Sustentabilidade para os Municípios”, que apresentou o UI GreenMetric, ranking internacional que nasceu no ambiente universitário e agora passa a orientar também cidades.
A superintendente de Gestão Ambiental da USP, Patrícia Iglecias, explicou que a USP, atualmente considerada a 5ª universidade mais sustentável do mundo e líder na América Latina no GreenMetric, atua como coordenadora do programa no Brasil. A inscrição para os municípios é gratuita.
O representante internacional Vishnu Jowono explicou que o ranking avalia as cidades com base em 63 indicadores, organizados em seis categorias, com pontuação máxima de 10 mil pontos. Atualmente, 71 municípios de diferentes países participam do ranking.
O ambientalista Mario Mantovani, da ANAMMA, reforçou que indicadores de sustentabilidade já deixaram de ser diferenciais e passaram a ser requisitos para acesso a financiamentos e licenciamento de empreendimentos. São José dos Campos foi citado como exemplo de município que já trabalha com neutralização de carbono em parceria com empresas locais.
O painel reforçou que preparar as cidades para os efeitos das mudanças climáticas exige dados, metas, indicadores e ação coordenada entre poder público, iniciativa privada e sociedade civil.
CAU-SP debate arquitetura, urbanismo e clima
A programação também contou com uma agenda especial do Conselho de Arquitetura e Urbanismo de São Paulo, CAU-SP, com debates sobre gestão urbana, emergência climática, habitação social e fiscalização.
A conselheira Vera Blat Migliorini destacou que arquitetura e urbanismo impactam diretamente políticas públicas em áreas como habitação, mobilidade, acessibilidade, patrimônio, meio ambiente e planejamento urbano. O CAU-SP, que representa cerca de 80 mil arquitetos e urbanistas no Estado, defendeu maior aproximação com prefeitos, vereadores e gestores municipais.
Também foram apresentados a Escola Política do Território e a Câmara Temática de Mudanças Climáticas, criada para enfrentar problemas como enchentes, deslizamentos, ilhas de calor, incêndios e estiagem. Outro destaque foi o projeto de Assistência Técnica para Habitação de Interesse Social, desenvolvido pelo CAU-SP em parceria com o ONU-Habitat.
A mensagem do conjunto de painéis foi que a qualidade das cidades depende da integração entre conhecimento técnico, gestão pública, planejamento territorial e participação social.
Mulheres no turismo e transformação dos destinos
No Conexidades Mulher, o painel “Turismo, Cultura e Liderança Feminina: Mulheres que Transformam Destinos” reuniu gestoras e especialistas para discutir o papel das mulheres no desenvolvimento turístico dos municípios.
A diretora municipal de Turismo e Cultura de Holambra, Alessandra Caratti, apresentou a estratégia da cidade para fortalecer o turismo durante o ano inteiro, reduzindo a dependência da Expoflora como único atrativo. Já Roberta Sogayar, secretária de Turismo de Botucatu, contou como ajudou a estruturar uma secretaria de turismo no município e conduziu Botucatu ao título de estância turística.
A coordenadora da Secretaria de Turismo e Viagens do Estado de São Paulo, Ana Cristina Fernandes Clemente, trouxe dados relevantes: 53% dos fluxos de viagens são realizados por mulheres, mas apenas 10% ocupam cargos de liderança no setor.
O painel reforçou que a presença feminina em posições de decisão transforma destinos, qualifica políticas públicas, amplia oportunidades econômicas e contribui para uma visão mais integrada do turismo, da cultura e da gestão municipal.
Campos do Jordão no centro das discussões municipalistas
O resumo da programação de quarta-feira no 9º Conexidades mostra a amplitude dos temas debatidos em Campos do Jordão. Ao reunir assuntos como IA, saúde, turismo, infraestrutura, sustentabilidade, investimentos, urbanismo e liderança feminina, o evento reforçou sua proposta de conectar diferentes áreas da gestão pública em busca de soluções concretas para os municípios.
A presença de Campos do Jordão como cidade anfitriã também ganhou destaque nos painéis ligados ao turismo, à longevidade e ao desenvolvimento econômico. A cidade aparece não apenas como cenário do evento, mas como exemplo de destino que busca ampliar sua atratividade, diversificar experiências e fortalecer a economia local por meio de eventos, investimentos e planejamento.
Com uma programação técnica e estratégica, o Conexidades segue consolidado como um dos principais encontros municipalistas do Estado de São Paulo, colocando Campos do Jordão no centro do debate sobre o futuro das cidades brasileiras.